Saturday, December 10, 2011

monólogo III

e a voz cessou
no sonho em que já não sou Deus
deixei de me ouvir

fala vento no seu restolho
traz consigo a noite
seu manto afagou-me o sono

monólogo II

Falo baixinho, os meus botões também ouvem.
E há coisas que eles não devem saber.

E aqueles segredos mais altos,
os que o mundo deveria conhecer,
são meros exercícios
                sem espaço, sem tempo.

Ficam guardados aqui,
entre mim e os meus botões.

monólogo I

gritam dum futuro distante
ecos em paredes siderais
e as palavras não encontram voz

Thursday, November 10, 2011

o inverno tapa o ora vazio ninho

o vento sopra as vozes do seu destino
cairam em espirais com o pensamento
folhas secas atiradas pelo vento.
saber secular espalhado no chão
escritos do Sol, esmagados em vão.

Saturday, October 1, 2011

quero adormecer no vento
soprado pelas folhas deste carvalho,
    tufos loiros suspensos,

sonhá-las queimadas pelo outono
ou derrubadas no chão estival
    mumúrios do fim do verão

e, rolando a cara na neve doce,
acordar nos primeiros risos da primavera.
    gargalhadas sentidas

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Thursday, July 28, 2011

pai para filho

é a mão materna,
meu amparo d'outrora,
afago na tua moleirinha.

essas carícias tuas são minhas.

Thursday, July 21, 2011

No instante seco
perderam-se as virtudes

e na vertigem do momento,
poço fundo e escuridão,

sopra vento frio
e estala-se o chão.

Pousa o pé de mansinho,
pousa-o firme no chão

sente o cheiro da neblina
que se esvaindo regressará

Não feches mais os olhos
e nunca mais a verás

Saturday, June 18, 2011

também a meninice e a juventude são ilusão
(Ecl 11:10)

Agarrei o teu sorriso, criança que me levas.
O que procuras, pisando o chão que ignoras,
correndo além do desejo?

Encontrei o teu olhar, criança que me vês.
O que procuras no meu rosto cansado,
perscrutando os meus gestos?

Conheço os teus jogos, foram meus.
Também eu brinquei no fio da vida
que nos aparta da memória.

Friday, May 27, 2011

Cinzentos, húmidos, chuviscos,
Tédio de Março.

Hoje explodiste com o Sol,
língua de fogo.

Tuesday, May 24, 2011

Viagem

Cavalguei os tempos,
cristas de ventos húmidos.

Nas fragrâncias da Primavera,
parei.

Thursday, May 19, 2011

Nas asas duma brisa matinal,
pétalas penduradas nos astros.

Ondas de fresco verde
agitam cores desfocadas.
Vem, senta-te ao meu lado, conversemos a vida.
Os lábios, não os feches, eles agitam as banalidades.
Os olhos, abertos, burilam as verdades.

Tuesday, May 17, 2011

A maresia sussurrou-me aos ouvidos,
silhueta branca, noite vespertina.
Logo ali te desposei, envolvidos,
pele minha com a tua, alva e fina.

Monday, May 16, 2011

Breviário diurno

Semente de alvorada trespassa a abóbada,
sonho de criança, celeste, aconchega-se no cair da noite.

Tuesday, May 10, 2011

Cores de Verão,
perfumes de Primavera.
Manhã cristalina,
beliscos de Inverno.

Versão Haiku sugerida por Zef:
Cores de verão
perfumes da primavera
beliscos d'inverno

Sunday, May 8, 2011

Chuva de Verão

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Verão, quente,
e desceste com a chuva

que caiu devagar, mansa.
Gotas de desejo.

Friday, May 6, 2011

Mergulhaste no mar
donde trouxeste nos lábios
um ramo de flores 

voluptuoso, salgado

que eu consumi
como quem consome
as tuas lágrimas de Verão

Wednesday, May 4, 2011

Introspecção 1



Em introspecção
para lá do pensamento
além donde os sentimentos estão
longos ficam os momentos


Longe da razão
Aquém do coração
Inconsciente de mim
Ciente de estar assim


Olho o infinito
procuro aos meus pés
esqueço o que foi dito
encontro-te, sei quem és


Perco a vertigem
abandono o medo
os membros não tremem
encontrei o remédio.


Procuro nos teus braços
terra sólida para os meus passos
encontro no teu peito
tudo quanto não tenho feito


Acabo com o lamento
levanto-me, ergo a cabeça
retomo o andamento
o que quer que aconteça